6 de setembro de 2012

Associação Musical e a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto


A Associação mantenedora da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP) irá comemorar em maio de 2013 seus 75 anos. Fundada em 1938 com o nome de Sociedade Musical de Ribeirão Preto, posteriormente foi chamada de Associação Lítero-Musical e atualmente é a Associação Musical de Ribeirão Preto, uma entidade sem fins lucrativos que conta com a mensalidade de 478 sócios, patrocínios e projetos de Lei Rouanet para a realização de suas atividades.

No início do século XX aconteceram em Ribeirão Preto, diversas tentativas para a criação e funcionamento de sociedades musicais sinfônicas. Através de programas de concertos destas antigas sociedades musicais que datam de 1923 e 1929, podemos constatar que a OSRP é ainda mais antiga.

Somente a Associação Musical de Ribeirão Preto consolidou a OSRP que é hoje considerada a segunda orquestra mais antiga do país em atividade ininterrupta.


Seus fundadores foram pessoas de diferentes camadas sociais. Identificamos, entre eles, profissionais como: carteiro, fotógrafo, médico, advogado, comerciante, taxista, entre outros e alguns músicos, que se encontravam após o expediente do dia de trabalho para ensaiar. Tocavam por paixão à música.

Na primeira página do estatuto de funcionamento desta entidade consta que a Sociedade Musical “nasceu de um punhado de homens idealistas, para afirmar de público que um monumento seria erigido nesta cidade, em homenagem à música”. E esse movimento sintetizaria o símbolo da harmonia reinante no seio da classe musicista que trabalharia em benefício da arte musical, difundindo pela sua Orquestra Sinfônica a  “boa música”, símbolo aristocrático que buscava o aprimoramento cultural do povo.

Seria então esta Orquestra inicialmente sinfônica? Não. Nossa orquestra foi fundada com características de filarmônica. A diferença está não no repertório ou na quantidade de instrumentos, mas na maneira como ela se constitui juridicamente e administrativamente. A palavra "sinfônica" indica um repertório composto por sinfonias e também serve para representar alguns grupos musicais mantidos exclusivamente pelo poder público ou de outras sociedades. "Filarmônica" diz respeito às sociedades musicais mantidas por pessoas que demonstram interesse pela música: os amantes, ou amadores que acabam por subsidiar determinados conjuntos orquestrais. O nome "Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto" permaneceu por tradição.

A OSRP ficou logo conhecida, pois era a única no gênero em todo o interior do estado de São Paulo. Contava com alguns maestros, que se alternavam nos 12 primeiros concertos e com músicos amadores. Ignázio Stábile foi o primeiro maestro titular, assumiu a regência em 1941, trabalhou como copista e orquestrador, adaptava as peças musicais para a formação disponível.
Sempre houve por parte da diretoria da Sociedade Musical de Ribeirão Preto a preocupação com a qualidade sonora das apresentações. Desde o início e durante mais de 20 anos, diversos corais da cidade participaram enriquecendo o repertório dos concertos, sendo que na década de 1950, a Orquestra mantinha seu próprio corpo coral, mas que teve curta existência, apresentando-se apenas em três ocasiões.

A Orquestra também incluiu em seus concertos a participação de importantes solistas nacionais e internacionais e maestros convidados. Seu repertório contemplou as obras dos grandes compositores europeus e brasileiros, com certa predileção pela obra de Carlos Gomes, mas também com espaço para compositores que moravam na cidade: Homero Barreto, Edmundo Russomanno, Belmácio Pousa Godinho, IgnázioStábile, entre outros.

Até o final desta mesma década (1950), a Orquestra somava mais de 100 concertos, o que pode ser considerado muito para a época e as circunstâncias. Com poucos recursos financeiros oriundos dos sócios e da posterior subvenção da prefeitura, sua existência foi considerada “um milagre” pela imprensa já em seu primeiro ano de vida, resistindo com o passar dos anos a crises financeiras, administrativas, deficiência de instrumentos, falta de músicos, de sede própria e descrenças, entre outras dificuldades. O reflexo desta realidade pode ser percebido no número de concertos, uma média de 40 a cada 10 anos, quadro que se alterou somente na década 1980, quando o número passa para 73 concertos em 10 anos.

Vencendo as dificuldades, a Associação Musical nunca interrompeu as atividades da Orquestra. Registrou uma preocupação constante com sua qualidade musical, mantendo enquanto pôde o seu Conjunto Coral (1954), a Escola de Instrumentistas (1977), a Camerata de Fesch (1980) e a Orquestra Jovem (1985). Considera a sua responsabilidade social e continua na missão de divulgar a música erudita.

A Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto é hoje uma orquestra profissional e considerada patrimônio cultural da cidade. Lembramos o trabalho árduo e o idealismo de todos os seus músicos, fundadores e
administradores, desde o primeiro presidente Max Bartsch, as diretorias e os seus sucessores, os patrocinadores, sócios e o público que fizeram e fazem da OSRP, história e tradição, a expressão musical de Ribeirão Preto.

 Gisele Haddad - Musicóloga (Mestre em Música pelo IA/UNESP-SP)

1 de agosto de 2012

Arquivo Histórico recebe visita do cineasta Hossame Nakamura

Hossame Nakamura em pesquisa no Arquivo Histórico para o documentário  "Diacrônicas Sinfônicas , Sincrônica Memória". Foto: Gisele Haddad


 O cineasta Hossame Nakamura esteve na sede da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto no dia 24 de julho, para realizar pesquisas no Arquivo Histórico que irão enriquecer de informações o documentário “Diacrônicas Sinfônicas, Sincrônica Memória”. O trabalho, que recebe apoio do Programa de Incentivo Cultural  da Secretaria Municipal de Cultura, se apóia na descoberta de características de personagens, momentos históricos, composições e paisagens de Ribeirão Preto  no século XX. 
Além da pesquisa em diversos arquivos de Ribeirão Preto, as memórias para este documentário serão valorizadas através da participação de pesquisadores, compositores, familiares de antigos músicos e atores, que narrarão a história. 
Gisele Haddad recepciona Hossame Nakamura no Arquivo Histórico.
Foto: Rosana Araújo.
O roteiro tem o objetivo de revelar diversas formas que a música assumiu ao longo do tempo: da tradição das bandas “militares” de coreto, passando pelas Jazz bands, até chegar às Orquestras e, mais atualmente, ao meio acadêmico. 

“A recuperação de composições é outro processo importante que deve ser destacado na produção, o que proporcionará o resgate e a re-execução de partituras históricas, além da possibilidade de pensarmos em estéticas menos formais e mais artísticas para a fotografia, permitindo assim um olhar diferente sobre a paisagem urbana que já estamos habituados na cidade”, conclui Hossame.  
Hossame Nakamura e Gisele Haddad. Foto: Rosana Araújo.

3 de julho de 2012

Os Concertos da OSRP


Apenas após março de 2008, com a criação da Revista Movimento Vivace, os programas dos concertos realizados pela OSRP são nela registrados. Até então e desde 1938, ano de fundação da Associação Musical de Ribeirão Preto - mantenedora da OSRP, os programas eram impressos de modo avulso ou em livretos.
Atualmente, a OSRP conta com mais de mil e duzentos concertos oficiais realizados, além dos não numerados; concertos particulares, destinados aos patronos, que são os vendidos ou feitos em troca de serviços.
Com atividades regulares a orquestra é destinada aos seus sócios, realizando os Concertos Internacionais no Theatro Pedro II, que trazem solistas de diferentes instrumentos entre março e dezembro.  Sempre foi itinerante, principalmente na região de Ribeirão Preto e ainda realiza os Concertos Sociais, que levam a música para hospitais, escolas, praças, asilos.  Os Concertos mais tradicionais são realizados próximo ao dia 19 de junho, aniversário de Ribeirão Preto; o Concerto de Natal, realizado na semana do dia de 25 de dezembro.
Com esta intensa atividade, incluindo a constante preocupação com a qualidade musical e inclusive histórica, no instante em que se investe na recuperação e manutenção do seu Arquivo Histórico, a OSRP continua cumprindo sua finalidade de divulgação da música sinfônica e apresentando valores artísticos considerando seu distinto público, os sócios e toda a população. Pretendemos que através dos concertos a OSRP seja percebida e vivenciada por Ribeirão Preto, que tem nela parte de sua própria história.


Os 100 primeiros programas de concertos oficiais da OSRP
Os 100 primeiros programas dos concertos oficiais da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP) abrangem o período entre setembro de 1938 e novembro de 1956.
Esta coleção foi organizada em 1988 por Myriam de Souza Strambi, a pedido do então presidente da OSRP Dr. Luiz Gaetani, por ocasião das comemorações do jubileu de ouro da orquestra. Alguns programas foram doados por músicos e de outros foram feitas cópias dos originais.
Todavia, neles estão impressas informações de personagens relevantes da história musical e social da cidade de Ribeirão Preto e do Brasil, parte da história da própria OSRP e outros registros como visto nos exemplos a seguir:
1º -  22/09/1938 Primeiro concerto oficial da OSRP em Homenagem ao Maestro Carlos Gomes com a presença de sua irmã Joaquina Gomes, que residia em Ribeirão Preto.
2º -  22/11/1938 Concerto em homenagem à Santa Cecília, padroeira da música e dos músicos.
5º  - 29/05/1939 Comemoração do primeiro aniversário da Sociedade musical de Ribeirão Preto, mantenedora da OSRP.
8º - 21/11/1939 Concerto em homenagem ao Dr. Álvaro Figueiredo, secretário da Educação e Saúde Pública e Dr. Dário Dias de Moura, diretor gerla do Departamento de Educação do Estado de São Paulo.
9º - 22/01/1940 Concerto em homenagem ao centenário de nascimento do Dr. Luiz Pereira Barreto.
10º - 29/03/1940 Primeira audição no Brasil da Grande Fantasia sobre o Hino Nacional Brasileiro de Gottschalk.
17º - 30/05/1941 Concerto em benefício às vítimas de inundação do Rio Grande do Sul.
18º - 25/07/1941 Concerto da OSRP sob a regência do Maestro Armando Lameira, ex-aluno de Carlos Gomes.
22º  -  30/03/1942 Concerto em homenagem ao Maestro José Delfino Machado.
25º  -  01/02/1943 Concerto dedicado à memória do Cônego Dr. Francisco de Assis Barros
26º - 05/04/1943 Concerto sob a batuta da primeira mulher a reger a OSRP, Maestrina Dinorá de Carvalho.
29º - 08/10/1943 Soirée de Gala em Comemoração ao 13º aniversário de inauguração do Theatro Pedro II e de agradecimento à benemérita Companhia Cervejaria Paulista.
30º - 03/12/1943 Concerto em memória de Francisco de Biase.
40º - 08/10/1945 Concerto em homenagem ao 15º aniversário de inauguração do Theatro Pedro II.
44º - 05/07/1946 Concerto dedicado à memória do Maestro Pedro Giammarusti.
50º - 08/08/1947 Comemoração do 50º concerto oficial.
51º - 10/10/1947 Concerto em homenagem ao 17º aniversário da inauguração do Theatro Pedro II.
58º - 04/02/1949 Concerto em homenagem póstuma ao Dr. Fábio de Sá Barreto.
61º - 05/08/1949 Concerto em homenagem à Exma Sra. D. Sinhá Junqueira.
62º - 07/10/1949 Concerto em comemoração do 1º centenário de morte de Frédéric Chopin.
63º - 02/02/1949 Concerto em homenagem póstuma à Protásio Thomaz de Carvalho.
89º - 24/09/1954 Concerto dedicado à Dra. Evangelina de Carvalho Passig.
92º - 20/05/1955 Concerto em memória do Maestro Ignázio Stábile.
98º - 10/08/1956 Concerto em homenagem ao 1º centenário de Ribeirão Preto.


Programas de concerto
O Arquivo Histórico da OSRP possui grande parte dos programas de seus concertos oficiais. Para as pessoas que possuem programas de concertos antigos, pedimos o empréstimo do material para que possamos fazer cópias e, assim, enriquecer nosso acervo. Contato: arquivohistorico@osrp.org.br.

Por: Gisele Haddad

22 de maio de 2012

74 anos da Sociedade Musical de Ribeirão Preto



A OSRP comemora no dia 23 de maio, 74 anos de fundação de sua mantenedora, a Sociedade Musical de Ribeirão Preto, posteriormente chamada de Associação Lítero-Musical de Ribeirão Preto e atualmente Associação Musical de Ribeirão Preto. Apesar desta data, o concerto inaugural da Orquestra só foi realizado quatro meses depois, em 22 de setembro de 1938, tempo para que os músicos pudessem se preparar.

No início do século XX aconteceram em Ribeirão Preto diversas tentativas para a criação e funcionamento de sociedades musicais sinfônicas. Através de programas de concertos desta época, percebemos que muitos dos nomes envolvidos nessas tentativas também fazem parte da formação da Orquestra de 1938. Esses programas de concertos são indícios de que a OSRP é ainda mais antiga e que apenas a Associação que a mantém, completa agora seus 74 anos. Independentemente da data, o fato é que as pessoas que trabalharam para a prática da música sinfônica na cidade eram verdadeiros idealistas. Tendo como lema "A Boa Música Educa o Povo", frase presente nos primeiros programas de concerto, a Sociedade Musical - Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto pretendia: reunir todos os profissionais nesta Sociedade que seria sindical; o bem estar dos músicos; realizar pelo menos seis concertos anuais aos seus associados e ao público em geral e difundir a cultura musical em Ribeirão Preto.

Seus fundadores foram pessoas de diferentes camadas sociais. Identificamos, entre eles, profissionais como carteiro, fotógrafo, médico, advogado, comerciante, taxista, entre outros e alguns músicos, que se encontravam após o expediente do dia de trabalho para ensaiar. Tocavam por paixão à música.Na primeira página do estatuto de funcionamento desta entidade consta que a Sociedade Musical “nasceu de um punhado de homens idealistas, para afirmar de público que um monumento seria erigido nesta cidade, em homenagem à música”. E esse movimento sintetizaria o símbolo da harmonia reinante no seio da classe musicista que trabalharia em benefício da arte musical, difundindo pela sua orquestra sinfônica a “boa música”, símbolo aristocrático que buscava o aprimoramento
cultural do povo.

Seria então esta Orquestra inicialmente Sinfônica? Não. Nossa orquestra foi fundada com características de filarmônica. A diferença está não no repertório ou na quantidade de instrumentos, mas na maneira como ela se constitui juridicamente e administrativamente. A palavra "sinfônica" indica um repertório composto por sinfonias e também serve para representar alguns grupos musicais mantidos exclusivamente pelo poder público ou de outras sociedades. "Filarmônica" diz respeito às sociedades musicais mantidas por pessoas que demonstram interesse pela música: os amantes, ou amadores que acabam por subsidiar determinados conjuntos orquestrais. O nome "Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto" permaneceu por tradição.

A OSRP ficou logo conhecida, pois era a única no gênero em todo o interior do estado de São Paulo. Contava com alguns maestros, que se alternavam nos 12 primeiros concertos e com músicos amadores. Ignázio Stábile foi o primeiro maestro titular, assumiu a regência em 1941, trabalhou como copista e orquestrador, adaptava as peças musicais para a formação disponível.

Sempre houve por parte da diretoria da Sociedade Musical de Ribeirão Preto a preocupação com a qualidade sonora das apresentações. Desde o início e durante mais de 20 anos, diversos corais da cidade participaram enriquecendo o repertório dos concertos, sendo que na década de 1950, a Orquestra mantinha seu próprio corpo coral, mas que teve curta existência, apresentando-se apenas em três ocasiões.

A Orquestra também incluiu em seus concertos a participação de importantes solistas nacionais e internacionais e maestros convidados. Seu repertório contemplou as obras dos grandes compositores europeus ebrasileiros, com certa predileção pela obra de Carlos Gomes, mas também com espaço para compositores que moravam na cidade: Homero Barreto, Edmundo Russomano, Belmácio Pousa Godinho, IgnázioStábile, entre outros.

Até o final desta mesma década (1950), a Orquestra somava mais de 100 concertos, o que pode ser considerado muito para a época e as circunstâncias. Com poucos recursos financeiros oriundos dos sócios e da posterior subvenção da prefeitura, sua existência foi considerada “um milagre” pela imprensa já em seu primeiro ano de vida, resistindo com o passar dos anos a crises financeiras, administrativas, deficiência de instrumentos, falta de músicos, de sede própria e descrenças, entre outras dificuldades. O reflexo desta realidade pode ser percebido no número de concertos, uma média de 40 a cada 10 anos, quadro que se alterou somente na década 1980, quando o número passa para 73 concertos em 10 anos.

Mesmo com tantas dificuldades, a Orquestra nunca interrompeu suas atividades. Registrou uma preocupação constante com sua qualidade musical, mantendo enquanto pôde o seu Conjunto Coral (1954), a Escola de Instrumentistas (1977), a Camerata de Fesch (1980) e a Orquestra Jovem (1985). Considera a sua responsabilidade social e continua na missão de divulgar a música erudita.

Saudamos Ribeirão Preto por possuir o privilégio de uma Orquestra Sinfônica, hoje profissional. Mais uma vez comemoramos e lembramos o trabalho árduo e o idealismo de todos os seus músicos, fundadores e
administradores, desde o presidente Max Bartsch, as diretorias e os seus sucessores, os patrocinadores, sócios e o público que fizeram e fazem da OSRP, história e tradição, a expressão musical de nossa cidade.


Gisele Haddad - maio/2012.

8 de abril de 2012

Aluísio da Cruz Prates


Ex-músico da OSRP se empenha para homenagear os colegas músicos abrindo processos para que seus nomes sejam colocados pelos logradouros de Ribeirão Preto


Desde 2006, quando soube do trabalho de pesquisas sobre a OSRP e a história da música de Ribeirão Preto, o clarinetista Aluísio da Cruz Prates, o “Seu” Aluísio, sempre telefona para informar o paradeiro de antigos músicos e para falar de alguma foto ou partitura que encontrou.  Filho do escritor e memorialista Prisco da Cruz Prates e com recém-completados 87 anos, adora falar da rotina musical da cidade “de antigamente”. 

S. Aluísio conta histórias, mostra fotos e documentos históricos. Foto: Wasim Aluísio Prates Syed

Aprendeu música em Batatais no quartel da polícia com o maestro Alfredo Pires quando tinha 20 anos. Decidiu estudar sax soprano porque era o instrumento disponível e a também a necessidade da banda naquele momento. Passou para clarineta em 1954, por ocasião da aposentadoria do sargento José Joaquim de Oliveira (Juca); “o naipe precisou”, dizendo ainda: “passei apertado porque a clarineta é muito mais difícil; o sax tem chaves e a clarineta tem os orifícios para tampar com os dedos”.


Banda do 3º Batalhão da Polícia Militar de Ribeirão Preto com o Padre Donizetti na cidade de Tambaú por ocasião do aniversário do padre. Foto de 1957. Fonte: Arquivo Pessoal Aluísio da Cruz Prates.

Aluísio da Cruz Prates
Entrou na OSRP a convite do maestro da banda da polícia militar de Ribeirão Preto. Sentiu dificuldades com a mudança de conjunto musical; ”foi difícil porque a dinâmica da banda é diferente da sinfônica, tive que estudar para tocar um som mais aveludado”. Enrico Ziffer era o maestro titular da orquestra entre 1957 e 1962. S. Aluísio atuou na orquestra entre 1961 e 1982. Antes disso, tocou sob a batuta do maestro Ignázio Stábile, titular da orquestra de 1938 a 1955, quando ainda na banda da polícia militar, esta era convidada a tocar com a orquestra a Abertura 1812 de Tchaikovsky, por causa dos tiros de canhão que estão na partitura desta música. 
Maestro Spártaco Rossi
Estudou com o maestro Spártaco Rossi (1910-1993) entre 1962 e 1970, período de atuação deste como titular na OSRP.  Com ele teve aulas particulares de teoria musical e depois fez mais dois anos de teoria e práticas instrumentais no colégio metodista. “Ele chegou aqui muito legal comigo, pedia cópias de música pelo mimeógrafo, me ensinou transposição musical porque minha clarineta era em Si bemol e às vezes apareciam partituras para clarinetas em Do ou em La e eu tinha que dar conta”.
Só saiu da orquestra em 1982 após sofrer uma cirurgia de vesícula, quando não mais conseguiu continuar com os compromissos musicais do conjunto. Tocava então em cerimônias de casamentos com os colegas violinistas, Gilberto e Luiz Baldo. Desde a fundação e até a década de 1990, os músicos da OSRP não recebiam salário, tocavam por amor à música e ganhavam “no máximo um jantar no Pinguim ou na sede da Sinfônica... agradeça que a sinfônica existe, aos abnegados do passado”, diz ele se referindo aos colegas músicos fundadores da OSRP.
Maestro Spártaco Rossi e a OSRP. Década de 1960. Fonte: Aluísio da Cruz Prates.
Em 1993 ficou sabendo da morte de Spartaco Rossi e desde então começou as providências com a ajuda de sua filha, Dra Gláucia Aparecida Prates, para que o nome do maestro fosse designado logradouro público. Agora, depois de quase dez anos conseguiu, assim como também conseguiu anteriormente pelo nome do ex-músico, primeiro flautista e fundador da orquestra Caetano Lania (1908-1992) e do maestro Alfredo Pires (1900-1982), aquele que lhe ensinou música no quartel. “Virar nome de rua é importante porque muita gente vira nome de rua sem ter feito nada, e estes muito fizeram e trabalharam pela Orquestra Sinfônica e pela música de Ribeirão Preto”, finaliza S. Aluísio. 



Gisele Haddad
Publicado na Revista Movimento Vivace abril de 2012


5 de fevereiro de 2012

Documentos Raros

O mais antigo programa de concerto de Ribeirão Preto é de 1923

A imigração italiana em Ribeirão Preto permitiu a presença de seus costumes absorvidos pela sociedade também através da música. Verificamos que grande parte dos músicos que participavam dos conjuntos musicais sinfônicos da época era italiana, o que é exemplificado nos programas de concertos da Sociedade de Concertos Synphonicos de Ribeirão Preto, de 1923, e na contracapa do Programa de Concerto promovido pela Sociedade de Cultura Artística de Ribeirão Preto, em novembro de 1929, onde constam os sobrenomes Gumerato, Beretta, Palmieri e Martoni, entre outros italianos.



Programa do terceiro concerto da Sociedade de Concertos Symphonicos de Ribeirão Preto, do dia 3 de maio de 1923. Fonte: Arquivo Histórico da OSRP.



Capa do Programa de Concerto promovido pela Sociedade de Cultura Artística de Ribeirão Preto, em novembro de 1929. Fonte: Arquivo Pessoal Luís José Baldo.

Um fator a ser considerado é a participação parcial dos mesmos músicos nas duas Sociedades, com a distância de apenas seis anos entre elas e sendo patrocinados na cidade por sociedades musicais distintas. Com a presença da emissora de rádio PRA 7, inaugurada em 1924, que atraía músicos de todo o país para atuar nos programas musicais ao vivo, a cidade de Ribeirão Preto passou a contar com maior diversidade nos gêneros musicais apresentados, mesclando música “clássica” europeia, tangos, temas de óperas, valsas românticas, sambas, boleros e marchas, em conformidade com a tendência das outras rádios nacionais. A rádio contava com uma programação musical intensa e era grande o número de músicos atraídos para a cidade para trabalhar na emissora. Os músicos que tocavam as cordas nas orquestras da rádio eram os participantes das sociedades sinfônicas. 

Tais sociedades tinham vida efêmera, devido às dificuldades financeiras e administrativas para a produção de seus concertos; foram tentativas de se manter em funcionamento instituições que promoviam a “música de qualidade” ouvida apenas pelos cidadãos “de elevada cultura”.

Havia então condições para que a produção de música erudita pudesse acontecer e uma constante preocupação da classe social dominante na tentativa de se formar grupos orquestrais sinfônicos. Isso tudo era favorecido pela grande oferta de músicos que poderiam atender a elite nas atividades das sociedades musicais. Esta elite buscava se diferenciar culturalmente por meio de temas, técnicas e estilos dotados de valor cultural específico, favorecendo a existência dos grupos que os produziam - no caso, foi a música erudita que atribuiu a esta elite marcas de distinção reconhecidas e legitimadas por toda a sociedade.


O grau de autonomia de um campo de produção erudita é medido pelo grau em que se mostra capaz de funcionar como um mercado específico, gerador de um tipo de raridade e de valor irredutíveis à raridade e ao valor econômico dos bens em questão, qual seja a raridade e o valor propriamente culturais. (BOURDIEU, 1987, p. 108)



 Gisele Haddad

24 de janeiro de 2012

Max Bartsch e a Orquestra Sinfônica

No final da primeira década do século XX, a primeira Grande Guerra era iminente em toda a Europa. A família Bartsch, em sua maioria residia na região de Munique, na Alemanha.
Após várias reuniões, Heinrich Bartsch, o patriarca, em nome da preservação das várias pessoas que compunham o núcleo familiar, comunicou a todos que iriam deixar sua pátria natal.
O primeiro destino, após chegarem em Hamburgo por terra, foi um navio até o porto de Liverpool, na Inglaterra, onde acabaram residindo por um ano e meio. Mas, enquanto o conflito crescia, a terra da rainha mostrou-se um lugar hostil para os germânicos, e cogitou-se a ida para os Estados Unidos. Entretanto, ao final de várias discussões, preferiu a grande maioria, vir para o Brasil, terra ainda pouco explorada, que provavelmente não entraria no conflito.
Chegaram ao porto de Santos e acabaram juntando-se à comunidade alemã, na cidade de Taubaté. Aos poucos, iam recebendo as notícias de que praticamente todos os Bartsch que resolveram ficar na Alemanha, pereceram na guerra.
O irriquieto jovem Max Bartsch, ouviu falar de uma cidade que despontava no interior paulista, que era Ribeirão Preto, e numa longa aventura de caronas em charretes, cavalos e longas caminhadas, chegou ao lugar que adotaria como sua terra pelos tempos vindouros.
Max era um faz tudo. Colocava ferraduras em cavalos, fazia pequenos consertos, mas acabou contratado pela prefeitura como jardineiro. Acostumado aos belos jardins alemães, começou a fazer um plano de urbanização e plantio de árvores nos arredores da cidade, já prevendo uma expansão futura. Seu amor eram as palmeira imperiais, e foi esta sua marca principal.
Foram suas mãos que plantaram as duas fileiras de palmeiras na alameda de entrada da Catedral e também nos vários quarteirões da Avenida Jerônimo Gonçalves, que se conservam até nossos dias.
Os alemães estavam em vários cargos da Companhia Antarctica, uma cervejaria que abastecia não só a cidade, como toda a região. Max começou como cervejeiro, mas em muito pouco tempo, chegou à gerencia geral da fábrica.
Já estava casado com  Emília Engracia, falava português muito bem, mas sempre com o forte sotaque que levou por toda a vida. Gostava muito de degustar a cerveja e o chopp que produzia, além do inseparável cachimbo, e, em pouco tempo, seu veio artístico começou a aflorar.
Max tocava um complicado instrumento alemão, chamado cítara, que era um misto de harpa e violão. A cítara, como o violino, tinha vários tipos tanto para acompanhamento quanto para o solo das melodias, variando em tamanho e número de cordas. Devido ao grande número de alemães, em breve conseguiram não só os instrumentos, como também as cordas necessárias e Max mostrou-se um excelente compositor.
Os saraus da cidade passaram a ser muito mais alegres, com as apresentações do Quinteto Max, com valsas e polkas das mais variadas.
Nesta época, em toda casa havia um piano ou alguma pessoa que tocasse ao menos um violino. E assim estas pessoas foram se agrupando e surgiu o núcleo do que seria a orquestra de Ribeirão Preto.
Max começou a perseguir esta idéia com todas suas forças, pois queria uma orquestra digna do belo teatro que aqui se construíra, o Theatro Pedro II. O dinheiro necessário para contratar profissionais, adquirir partituras, manutenção dos instrumentos, condições gerais de ensaio, era obtido tanto na Antarctica, quanto de outros patrocínios e fundos angariados nas várias festas feitas na cidade.
Partindo do quinteto Max, e com a força de vários abnegados, nascia uma orquestra que até hoje é orgulho não só da cidade como de toda a região, que forma vários profissionais na área e que já projetou muitos talentos musicais, fazendo intercâmbio com músicos de todo o mundo.
Ironicamente, Max Bartsch nunca tocou na orquestra, pois a cítara alemã não faz parte dos instrumentos clássicos, mas a felicidade de ver um sonho realizado valeu todos os esforços, naquele que foi um dos maiores orgulhos de sua vida.


Henrique Bartsch,
neto de Max Bartsch


Publicado na revista Movimento Vivace  Ano I n. 3 - maio de 2008




Henrique Bartsch


foto: divulgação


Na madrugada do dia 02/12/2011, faleceu aos 60 anos Henrique Bartsch, neto de Max Bartsch (fundador e primeiro presidente da OSRP) e autor da biografia "Rita Lee mora ao lado”. Em maio de 2008, Henrique publicou um artigo na revista Movimento Vivace por ocasião das festividades dos 70 anos da OSRP. Henrique também foi colaborador do Arquivo Histórico doando em maio de 2011 cópia da foto em que ele e Max estão juntos.






16 de janeiro de 2012

SOBRE O HINO DO COMERCIAL

A primeira notícia sobre a composição e execução do Hino do Comercial – o mais antigo hino entre os principais times de futebol no Brasil – remonta à edição do jornal A Cidade de 6 de junho de 1920 (mantendo-se aqui a grafia original):

Jardim Publico – A Banda “Independente”, em homenagem aos valorosos e bravos rapazes do “Commercial F.C.” executará hoje no coreto do Jardim Publico, o seguinte programma:
I Parte
Hymno do Commercial F.C., B. Pousa Godinho.
Aída, final do segundo ato, G. Verdi.
Viúva alegre, fantasia, Franz Lehar.
Sonho dourado, dueto, V. Georgio.
  II Parte
Trovador, Aria, G. Verdi.
Brasillianita, ouvertur, N.N.
Colloqui d’ Amore, Duetto, N.N.
Hymno do Commercial F. C., B. Pousa Godinho.

Portanto, a Banda Independente, sob a batuta do maestro José Delfino Machado (18?? – São Paulo, 1942), apresentava pela primeira vez no coreto (que não existe mais) do “Jardim Publico” (hoje Praça XV), o Hino do Comercial, autoria de Belmácio Pousa Godinho (Piracicaba, 1892 – Ribeirão Preto, 1980). O Hino do Comercial era estreado, portanto, sem letra, numa execução com versão para banda, abrindo e encerrando o concerto público que continha essencialmente trechos instrumentais de óperas e operatas românticas ainda de grande sucesso na época, num encontro pioneiro entre futebol e música. Comemorava-se, em junho de 1920, o triunfo dos alvinegros ribeirão-pretanos no Nordeste por ocasião da excursão ocorrida em abril daquele mesmo ano, quando o Comercial venceu os principais times locais, recebendo então o título de “Leão do Norte”. O próprio Belmácio atuou como ponta direita naquele time excepcional do Comercial, pois além de músico (flautista e compositor) era também jogador de futebol, tornando-se posteriormente ainda presidente do seu clube do coração.
Se estas fontes documentais (notícia de jornal) já nos indicam a existência do hino numa versão instrumental para banda sem letra desde 1920, contudo, esses manuscritos infelizmente ainda não foram localizados – se é que ainda existem. Já os manuscritos que citaremos agora (ver partitura em anexo), estão, por sirte, depositados na Biblioteca Central do Campus da USP de Ribeirão Preto. Os manuscritos autógrafos mais antigos que sobreviveram – ou seja, redigidos pelo próprio punho de Belmácio – não passam de esboços para piano sem indicação de data e sequer consta a letra. É provável que sejam da época da primeira gravação. Àquela altura (final dos anos 50 e início dos anos 60 do século passado), o professor Daniel Amaral Abreu (Ribeirão Preto, 1917 – 1978) escreveu a letra do hino. Há ainda, no entanto, uma partitura para piano manuscrita confeccionada posteriormente. Já ao ano de 1961 remonta a partitura sinfônica elaborada em manuscrito por Gilberto Gagliardi (São Paulo, 1922- Ribeirão Preto, 2001) e gravada pela Orquestra das Emissoras Associadas, sob regência do maestro Georges Henry (*Paris, 1919) – é esta gravação que ouvimos até hoje antes dos jogos e sempre ainda a mais difundida.
Por fim, numa entrevista ao jornal Destaque de São Paulo, a 15 de agosto de 1976, de Belmácio Pousa Godinho foi perguntado sobre suas obras, e declarou: “minhas composições que mais amo, amo de verdade, são Supremo Adeus e o Hino do Comercial, o Leão do Norte”.
Além de Belmácio Pousa Godinho, outros compositores históricos de Ribeirão Preto dedicaram obras musicais ao clube do coração e o mais querido da cidade, o Comercial Futebol Clube. Podemos citar o próprio José Delfino Machado, como também Maneco Silva (Ribeirão Preto, 1896-1964, violoncelista da OSRP), Edmundo Russomanno (Bragança Paulista, 1893 – Ribeirão Preto, 1963, também clarinetista e presidente da OSRP) e Angelino de Oliveira (Itaporanga, 1888 – São Paulo, 1964, autor da famosa Tristeza do Jeca, comercialino que acompanhava os jogos do comercial da Rua Tibiriçá nos anos 20), entre outros.
Para esta presente efeméride centenário do Comercial Futebol Clube (fundador a 11 de outubro de 1911), a OSRP está apresentando uma nova versão sinfônica por mim escrita para grande orquestra, mas respeitando os trabalhos anteriores e mantendo os fundamentos da brilhante partitura original de Belmácio P. Godinho, bem como da orquestração histórica de Gilberto Gagliardi.


 Rubens Russomanno Ricciardi
Professor Titular do Departamento de Música da FFCLRP-USP



Publicado na Revista Movimento Vivace – outubro / 2011


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Hino do Comercial pela OSRP regência Cláudio Cruz, orquestração Rubens Russomanno Ricciardi