2 de agosto de 2011

Orquestra, Plateia e História

Ainda quando a Sociedade Musical organizava a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto (OSRP) em 1938, buscava-se a música e o entretenimento, necessidade social de todos os povos. Poderia ser simples explicar a interação entre palco e platéia: a música como produto final da Orquestra em troca de aplausos, mas assim ofuscaríamos a proporção entre a ação e reação recíproca entre as partes. Por isso tentamos ir além e analisar o ambiente que envolve as apresentações desde a época de sua fundação.
Começando pela divulgação do espetáculo ou pela corrida à procura de ingressos já no concerto inaugural da Orquestra, o Theatro Pedro II, apesar de sua grande capacidade de público, foi considerado insuficiente para atender ao maior acontecimento artístico de 1938. O entusiasmo do público era tanto, que se estendeu aos concertos posteriores por toda a década de 1940 em grandes apresentações.
Outro item importante nesta interação são os programas de concerto, que foram impressos para o público desde a primeira apresentação em todos os concertos oficiais, sendo o principal canal de informação escrita entre a Orquestra e a platéia além de servir como registro do repertório utilizado. O Arquivo Histórico da OSRP mantém na íntegra os programas de concertos desde o início das atividades em 1938. Alguns são curiosos como os emitidos até a década de 1950 que traziam a frase: “O cultivo da boa música educa o povo!”, afirmando a ideologia da Sociedade Musical que aproveitava a oportunidade para convidar as famílias para fazer parte da Sociedade Musical, como demonstrado no interior do 2º programa de 22/11/1938 que diz: “Inscrevei-vos como sócio da Sociedade Musical de Ribeirão Preto propugnando por esta forma para o aperfeiçoamento artístico de nosso povo”.
Outras inscrições traduzem acontecimentos, como no 8º programa de concerto de 21/11/1939, onde consta a inscrição: “A directoria pede ao público o obséquio de não conversar em se levantar durante a execução musical”, o que nos leva a pensar em algum episódio anterior onde o público não teve comportamento esperado pela Sociedade Musical. No 17º programa de 03/05/1941 está escrito: “Em benefício às vítimas de inundação do Rio Grande do Sul”, demonstrando ser antiga a preocupação e responsabilidade social da Orquestra e que chuvas e enchentes acontecem no sul do país há tempos nesta época do ano. O 18º concerto realizado em 25/07/1941 apresentou mais uma vez a “Sinfonia do Guarani” de Carlos Gomes, desta vez com a inscrição em seu programa “considerada hoje o segundo Hino Nacional”, demonstrando também a predileção pelo autor. Ou ainda anotações como a localizada em um dos exemplares do 25º programa de concerto de 01/12/1943 que foi doado ao Arquivo Histórico da OSRP e contém a inscrição na capa em letra feita com caneta tinteiro: “era muito grande o enterro do Cônego Barros”, outra letra, logo abaixo; “eu não fui” e em outra linha igual à primeira letra: “eu vi, você foi”. Este concerto foi dedicado à memória do Cônego Dr. Francisco de Assis Barros. Desde março de 2008 os programas de concerto estão integrados à Revista Movimento Vivace, veículo oficial de divulgação da OSRP que agrega artigos e informativos sobre os eventos relacionados à Orquestra e de outras atividades culturais de Ribeirão Preto e região.
Platéia da OSRP no Theato Pedro II década de 1950. Fonte Arquivo Histórico da OSRP.
Voltando à platéia e seu comportamento, há nela um ritual que é percebido logo na entrada do Theatro onde acontecem os primeiros encontros pessoais, seguidos pelo recebimento da Revista Movimento Vivace e da acomodação de todos. Durante a apresentação talvez uma sinfonia de tosses pode ser ouvida, elas estão presentes, mas ainda não foram analisadas em âmbito orgânico ou psicológico. Surge então uma dúvida: posso ou não bater palmas ente os movimentos de uma música? O bom senso diz que não, para que não se desconcentre o momento, pois a música nem terminou. Isso é difícil de seguir porque muitas vezes a emoção toma conta e os aplausos são espontâneos, característicos de encantamento do público e/ou do “papel cumprido” da Orquestra. O intervalo é uma boa oportunidade para um café no subsolo ou uma visita à Sala dos Espelhos ou também para comentar a execução musical. Todos os solistas nacionais ou estrangeiros são sempre recebidos carinhosamente pelo público que pede bis. Na despedida a alegria está no ar.
Existe uma linha através do tempo que foi mantida apesar das dificuldades na trajetória histórica da OSRP. Isto só aconteceu graças às intervenções da sociedade de Ribeirão Preto, seu principal público, a platéia, que mantém sua Orquestra viva para atendê-la e representá-la. E a recíproca é verdadeira.


 Gisele Haddad
arquivohistorico@osrp.org.br
Artigo Publicado na Revista Movimento Vivace Ano II nº 13 abril de 2009